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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O segundo encontro

Ficamos nós dois deitados ... Os pés vez ou outra eram molhados pelas ondas que chegavam fraquinhas naquele ponto. O dia começava a raiar, o céu alaranjado, umas estrelas insistentes esparramadas... A gente se olhou como quem diz “eu te amo” pela primeira vez e percebemos: éramos felizes naquele exato momento... Um momento simples e tão único!
Ele esticou o braço de modo que pegasse a ponta dos meus dedos, eu retribui com um pequeno esforço.. Era uma preguiça feliz que escorregava por todos os poros do corpo!
_Ficamos mesmo tanto tempo longe um do outro?
_ Quase a vida inteira, eu acho...
_Mas, parece que a vida inteira não durou nem uma hora, pensando agora...
_ Para mim, foram longos anos!
Ele riu, eu ri.
Era ali na areia, o homem da minha vida. Cabelos meio grisalhos, umas rugas necessárias. Eu não mais jovem, nem tão romântica, deixando pra trás a paixão platônica da juventude, pela verdade do destino...
Qualquer um que por ali passasse veria um homem e uma mulher já adultos, deitados à beira mar, feito dois bobos ou bêbados talvez; repletos de uma alma nova, uma alma mais jovem do que quando tínhamos nossos 20 e poucos anos...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Permita-se!

Que você tenha um seleto gosto musical, mas que curta um tecnobrega às vezes! Permita-se, (e amo mesmo essa frase do permita-se) às atitudes idiotas, quase inocentes...
Que você tenha mesmo aquele carro esporte, mas pense num fusquinha vermelho em noites sem estacionamento, garagem ou um segurança maior...
Eu cultivo o hábito de ser criança! Tenho um baú cheio de sorrisos largos, tolos e fáceis. Abro para os estranhos, para os amigos, para o espelho...
Eu aqui no alto de 1m57cm aproximo-me dos 30, daqui alguns poucos anos; ganhando algumas ruguinhas ingratas, mas um jeito pueril.
E quando é necessário ser séria, severa, quase que enrijeço, pois não sei ser metade, sou inteiro...
Passional, insegura, exagerada, embriagada ... Gosto de papos bobos, de estrelas na madrugada, de dançar muito com os melhores amigos gays que qualquer mulher pode ter!
Mentiria feio se dissesse que não choro! Choro muito, choro bobo, choro tolo... Choro porque tenho vivido muita coisa boa nessa vida... Choro porque aprendi a mergulhar! E de ir tão fundo, já bati a cabeça algumas vezes! Tudo bem! Voltei à superfície com algumas lições valiosas...
Ainda procuro algumas coisas perdidas ou não deixadas no caminho. Vai saber!!! Enquanto a lei for o “permita-se”, muitas coisas pode se descobrir...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Dias de chuva

Eu gostaria mesmo dos dias de chuva guardados num vidro de balinhas. Estes mesmos que nos deixam pensativos, quem sabe nostálgicos. Quando a umidade invade nosso coração e nos faz querer conforto, cama e filme...
Dias de chuva para refrescar dores teimosas, amores distantes, vidas confusas...
Um dia de chuviscos e guarda-chuvas esquecidos para nos causar aborrecimentos bobos... De chuva intensa para nos ocultar de amores ingratos ou, quem sabe então, temporais para noites de amor e gozo...
Chuvas assim, guardadas num vidrinho de balas, ao lado da minha mesa de trabalho ou na escrivaninha do meu quarto. E quando tivesse tudo tão quente e incômodo, eu abriria o vidro e mergulharia ... Num mundo de águas e travessias, tão aconchegantes e omissas, que todos os calores mórbidos passariam...
Voltaria ao real com os cabelos molhados, o olhar limpo, a alma lavada!
Lavados e molhados de dias de águas do céu... quem sabe, todas sempre, no meu vidrinho de balas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

De lugar em lugar

_O último, encontrei num lugar chamado Graças a Deus! Mas, faltou a divina graça ..
_Então vá no Cheio de Graça, quem sabe assim!
_Paquerar por paquerar, penso no Balaio de Gato. O que você acha?
_Se há gatos nesse balaio, apoio. Mas, já pensou no Alambique?
_Bebem demais, decerto.
_E na Swingers?
_A proximidade do nome indica um pervertido sexual.
_É verdade.
_E no bar do Luizinho, gata?
_Rima com vizinho, quero menos proximidade!
_Pimenta com Cachaça?
_Mistura perigosa.
_La Canja?
_E já assumir que serei trocada pelo futebol.
_Amarelim?
_Prefiro um morenim
_No Agosto?
_De Deus? Já orei por isso.
_Bananeiras Bar?
_Eles são verdes e deixam um gosto amargo.
_Que tal no Bar da Cida ou da Lora?
_Prefiro começar com menos mulheres.
_Bar do Caixote?
_E depois viver numa casinha de sapê? Nãooo.
_Bar do Véio?
_Prefiro os jovens.
_Ah e o Bigode?
_Prefiro os barbas-feitas.
_Achei um ótimo. Butiquim Santo Antônio?
_Seria bom, se ele não fosse casamenteiro.
_Mas, então o que você quer?
_Tem algum aí com nome "Bonitos, ricos E solteiros"?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Fotografias e memórias a parte

Era 2007 e o aniversário do Chico, meu marido, estava próximo. Decidi então, fazer uma surpresa! Chamei o Geraldo, famoso por desenhar retratos de pessoas, e dei lhe um 3 x 4 do Chico. A fotografia em preto e branco mostrava o Chico rapazinho, com seus 20 e poucos anos. Logo que Geraldo me entregasse, iria colocar numa moldura e dar como presente. O Geraldo porém, além de habilidoso, era enrolado, nunca me entregou nem o desenho, nem o retrato.
Dois anos se passaram e esqueci então, do Geraldo, do retrato e daquilo que seria um desenho. Meu marido fez outros aniversários, óbvio, e quanto mais os anos passavam, mais sua memória fotográfica ficava ruim.
Fotografias e memórias a parte, dia desses Chico precisou ir ao centro da cidade. Coisa que ele odiava fazer! Muita sujeira, gente demais e trânsito infernal! Naquele dia, porém, seria inevitável, haviam coisas para serem resolvidas somente indo lá! Pegou o carro e foi em direção ao caos. Para confirmar a antipatia, ficou preso num engarrafamento, pouco antes do túnel.
Tentando concentrar-se em alguma coisa, olhou pela janela e viu um estranho acenando com simpatia para ele. Não o conheceu, mas retribuiu o cumprimento. O estranho então, aproximou-se mais.
_ Chicoooooo, como vai você cara?!
Meu marido franziu a testa, continuou sem saber quem era o sujeito, mas respondeu:
_Eu vou bem e você?
_Tudo bem cara? E aí, como vai a empresa?
Tentando se salvar da situação, Chico quis identificar o interlocutor.
_Está bem! E o seu trabalho velho, tá bom? (quem sabe ele falaria onde trabalhava, local, sei lá e Chico saberia quem era)
_Está bem sim...Beleza!
_Ah...
_ E sua esposa Chicão?! Como vai a Marisa?
Deus, ele me conhece mesmo!!! _pensou Chico.
_Está bem! E a sua família, como vai? _ quem sabe ele diria o nome, falaria dos filhos...
_Estão bem, graças a Deus!
_Ah... que bom ! _quem é esse cara meu Deus?! Chico já ficava atônito.
Foi quando, o sujeito definitivamente colocou Chico contra a parede.
_Chiquinho do céu! Estou com uma foto sua aqui há um tempão na minha carteira! Olha aqui, olha! _ e tirando a velha 3 x 4 do Chico com 20 e poucos anos, mostrou-lhe.
Meu marido então pensou: Puta que pariu, esse cara deve ser apaixonado por mim!! E não perdendo o humor, falou:
_Nossa cara, mas esta foto está muito velha!! Deixa eu te dar uma mais recente para você não me esquecer mesmo! _ e abriu a carteira tirando uma 3 x 4 colorida, com alguns cabelos a menos.
O trânsito começou a fluir, Chico disse tichau ao sujeito desconhecido, ou melhor, ao Geraldo desenhista, que por sua vez, ficou lá sem entender o por quê da nova foto.
Em casa, Chico me conta:
_Marisa, achei um cara, que sério, não sei quem é! Conhece você, sabe onde eu trabalho, e pior, guarda uma foto minha na carteira dele, desde quando eu era moço!!


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Olhos profundos

Ele tinha o olhar profundo, lânguido, como quem pedisse um sonho na rede da varanda. Nas conversas sérias, nos papos soltos, o olhar era sempre tão infinito, que doía. Enquanto falava, ia olhando, olhando bem dentro. Vez ou outra Alice abaixava os olhos para fugir. Aquele olhar incomodava! De repente tinha se a sensação de que ele adivinharia todos os segredos dela, aqueles guardados tão criminosamente.
Ela preferia os silêncios que faziam, e que mesmo assim, permitiam que se olhassem nos olhos mais um pouquinho. Era um medo excitante! Um medo que a fazia ter vontade de falar: Adivinha então meus temores, que te dou coisas melhores! Mas, não...
Ele sentava ali na frente dela, brincava um pouco com o copo que estava na mesa, e soltava palavras bobas.
Aí então, olhava bem, bem nos olhos dela, e sorria.
Não havia um sorriso que acalmasse, pois o olhar invadia todos os espaços.
Alice então, rompeu o medo:
_Eu já te disse que você tem o olhar mais lindo e mórbido que já conheci?
Ele riu com pouco caso e falou:
_E que você foge de meu olhar porque esconde coisas? Eu já te falei?
Aquela sinceridade irônica desceu pela espinha da moça, parou gelada no estômago. Ficou com vergonha.
Então, o rapaz arrematou:
_E não há nada mais instigante do que mulheres com segredos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A flor e o vento

Ele a seguia entre os becos, olhando pelas frestas. Onde restasse um pouco do perfume, ele absorvia, deixava-se levar! Não era mais hora de dizer olá ou mesmo volta, ficara tudo tão mais cômodo quando ele ficou longe. Ela não tinha mais tantos defeitos, nem sua voz o irritava mais. Era bela porque estava inicial, como antes... Aquele antes perdido!
Vez ou outra ele preferia fechar os olhos, ignorar... Não pediria mais os sonhos dela, não buscaria alguma pista. Era dia de saudade, e em dias assim, tudo doía tanto, que era mais fácil fingir.
Ele bem sabia que a estrada dela estava ficando cada dia mais distante, mais comprida. Mas, havia uma decisão parada no ar, a decisão de não agir...
Naqueles dias de sol batendo na janela ou de chuva miúda, nos bares de forros velhos ou de ligações inequívocas, era sempre mais fácil não estar lá...
Dia sim, dia não, acordava e via algumas pétalas espalhadas pelo quarto. Era ela indo embora, todo dia, aos poucos... A primeira vez jogou as debaixo da cama, na segunda, pisou ... Na terceira não as viu mais!
Teve a impressão que o retrato, antes colorido, havia desbotado. Quase um preto e branco... Na caixa de cartas, uma poeira pousara, ficou ali tão escura e densa, que fechou-se como se tivesse com cadeado.
Aos poucos, ele não mais percebia. Parou de seguir, de saber, de entender... Deixou o vento levar o perfume dela, a traça roer as cartas, a vida ficar sem graça... Enquanto ela ainda passava pelos becos, entrecortava algumas ruas, na esperança de vê-lo escondido, a observá-la em algum lugar.